Falei pro Binho [foto]: quando ficou definido que você seria o candidato, senti uma corda vibrar aqui dentro. Há um sentimento de retorno aos bons tempos, uma recuperação de sonhos da juventude, uma retomada da cumplicidade e da intimidade, uma recuperação do fluxo e da conexão.
Basta olhar em redor e ver as coincidências, as coisas que pareciam perdidas e que reaparecem, o que era antigo e se revela eternamente jovem.
Sem ilusões, que não sou mais disso, considero ao menos a hipótese de fazer coisas boas e criativas. Não dá mais pra salvar o mundo? Tudo bem, mas não precisamos ouvir música ruim no baile do Apocalipse, podemos compor outra trilha musical.
Tenho dito a todo mundo: o Estado deve comportar áreas de anarquia criativa. Isso é impossível se o objetivo central da nossa política é manter o controle e ampliar o poder. Mas com dirigentes focados no conteúdo do trabalho, sem muito apetite para a política, a flexibilização das estruturas se torna possível.
Costumamos nos referir à “máquina” do Estado. Um dia eu estava em Brasília, no Ministério do Meio Ambiente, quando passou uma passeata de funcionários batendo panelas e reivindicando isso e aquilo. Maristela, jornalista, assessora da Marina, que olhava a cena pela mesma janela, comentou: “não existe esse negócio de máquina, são pessoas”. Tive a súbita visão de que o Estado é um comportamento, um conjunto de hábitos e rotinas.
Binho está cheio de boas idéias. Escuta os conselhos de todo mundo a respeito da campanha, do que deve dizer ou calar, de como deve comportar-se diante das câmeras etc. e tal. Mas permanece focado no governo, na luz lá na frente, depois do túnel da campanha. Torço para que permaneça assim.
Sei o que uma campanha e a perspectiva do poder fazem à alma e ao ego do candidato. É como uma câmara fechada para testes de astronautas, em que a pressão muda rapidamente e várias vezes, provocando as sensações mais loucas e até deformando o corpo. Vi todos esses moços passarem por essa prova: Jorge, Tião, Marina, Marcos, Angelim... Vi a inocência deles ser amassada e rasgada. Agora é a vez do artista do grupo.
Tenho lembrado o tempo todo da pixação no muro, que virou letra de música nos início dos 80: “ar de artista, menino na cadeira do dentista”. De quem é mesmo essa, hem Binho?

Escrito por Moisés Diniz às 13h37

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