DO VINHO PRA ÁGUA
Cheguei ao hotel no dia 11 de janeiro, às 10:30 horas. Não dei nenhum valor ao ar condicionado, à cama ou ao frigobar. Eu estava acostumado com as benesses urbanas!
Nos 12 dias seguintes, nas barrancas do rio, lembraria que aquele conforto faz parte de nossas misérias humanas!
Às 10 horas da manhã, do dia 12, nosso barco de 6 toneladas singrou as águas do rio Tarauacá. Até aí tudo bem! Na primeira comunidade, onde aportou nosso barco, nos chocou a quantidade de crianças doentes. Tínhamos levado, junto com a equipe médica, remédio para 6 atendimentos. No 4º já começou a faltar medicamento!
Junto aos doentes, um fenômeno maltratava aqueles que nunca tinham viajado pelas barrancas dos rios amazônicos. PIUNS. Eles pareciam feras famintas a atribular a pele dos meus amigos urbanos. Aquelas crianças e suas mães maltratadas batiam nas pernas, nos braços e no pescoço, tentando afugentá-los! Era uma luta inglória, como a maldição da fome, a atormentar seus corpos marcados!
Ali descobri o quanto a vida urbana concentrou os bens materiais. Aquele povo, excluído até do direito de ter um padre para ouvir seus magros pecados, estava resistindo na floresta. Não queria que as suas filhas se prostituíssem na cidade.
Sofri com eles e me senti um homem nulo, incapaz até de gritar contra aquela exclusão! Lembrei dos belos carros estacionados em frente a uma reunião dos líderes da esquerda, meu jantar nos restaurantes, minhas misérias pessoais.
Sei que fiz pouco! Levei um pouco de consolo, através de uns remédios para curar suas feridas permanentes. Mas volto cheio de uma energia que não morre, uma força que não se negocia. Volto mais parecido com os meus antepassados, com vontade de juntar mais gente a favor daquele povo!
Não tenho nenhuma teoria, apenas o desejo sincero de ajudá-los a resistir!
Escrito por Moisés Diniz às 17h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|