A Floresta e o Asfalto em Sustenido
Não foi a floresta que caminhou até lá. Quando os dois se encontraram já não havia como afirmar que aquela inimizade fosse acabar. Muitos os desencontros e as mágoas. Cada um afirmava a sua verdade, uma verde como ela mesma e a outra negra como a noite dos temporais. A floresta perguntou ao asfalto:
- Que fazes aqui em meus domínios?
- Venho buscar recursos naturais para alimentar os homens que expulsaste daqui!
- Eu não os expulsei, tu é que arrancaste deles as condições de viverem em paz por aqui!
- Que queres que eu diga: que tens razão ou que foste incapaz de cuidar daqueles que viviam em torno de ti?
- Não quero a tua complacência, pois cada vez que, de alguém te compadeces, ganham inquilinos novos os cemitérios.
- Tens a ousadia de afirmar que eu estou a exterminar os homens urbanos?
- E nem sequer precisas usar arma de fogo. Teus programas sociais e tuas esmolas fazem por ti.
- Queres que eu os deixe morrer de fome?
- Não! Quero apenas que retire dos olhos daquela gente a vergonha de receber!
- Que queres que eu faça?
- Que os deixe viver!
- Que vida além daquela de todos os dias eu os alimentar?
- Primeiro tu deves parar com essa mania de gostar apenas dos ricos!
- Que queres dizer com isso?
- Por que tu só passas em frente das casas da elite?
- Tu não respondeste a minha pergunta!
- É que, de tão insensível, sequer percebes que tu mesmo te entregas às minhas respostas!
- Estás a me enrolar e não dizes em que dia vamos casar!
- Será um casamento forçado!
- Que fiz para merecer tanto ódio?
- Não é ódio, é discernimento.
- Provas então que, em teus domínios, a vida é melhor do que sobre meu corpo!
- Aqui, os homens não morrem em confronto!
Escrito por Moisés Diniz às 23h53
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